Talvez eu
precisasse me preocupar, pois possa ser sinal de involução, mas a minha maior
felicidade dessas últimas semanas foi tomar um sorvete. Involução não pela
simplicidade, não me entendam mal. Sempre defendi a grandeza dos pequenos
prazeres, esse complexo de Amelie Poullain que me assola, sem recursos. É que o
cenário foi todo uma surpresa, por sua esterilidade. Era shopping, era véspera
de feriado, era sacola de papel ao lado, era copo e colher descartáveis, era
massa da máquina da franquia mais batida do fast-food do mundo, eram todas
essas coisinhas que a gente adora criticar, pra pagar de humanitário. Isso tudo
é o que se via, e quem me via ali me achava só mais um. Porque, de fato, pra
quem vê, eu estava mesmo sendo só mais um sentado num banco central de um
corredor liso e frio, esbarroes e vozes se atravancando em meu redor. Mas então
eu me lembrei que eu não enxergo e podia esquecer tudo isso.